Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
Conheceram-me logo por quem não era
E não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Tinha Envelhecido
Álvaro de Campos,1928 ( Fernando Pessoa)
Esse pequeno poema retirei da obra Tabacaria. Serve para ilustrar o que muitas vezes penso, observo no convívio com as pessoas e até mesmo comigo. Muitas vezes usamos várias máscaras no dia a dia, no nosso ambiente profissional, com a família, com os amigos, nas redes sociais e com as pessoas das quais convivemos por educação apenas. Complicado é quando não conseguimos mais nos definir quem somos.
Tenho amizade com uma pessoa local que me deixa preocupada, vive uma vida de faz de conta, aérea, fora da realidade. Não consegue mais tatear o chão, aliás não quer ajuda e se recusa a ver como isso está a destruindo. Tem sérios problemas.
Eu sinceramente fiz tudo o que pude, até porque não tem como ajudar alguém que não quer ajuda. Orgulho. Meu receio é que a hora que o mundo perfeito idealizado dela se quebrar ela faça uma besteira. A pergunta que fica é quem será ela sem a sua máscara a sustentar? Os anos se passaram e nada fez por si mesma, e assim como no poema o tempo não nos perdoa.
Será que vale a pena encenar uma vida que não é nossa? Para fugir ou até mesmo se proteger? Não sei.
O que tenho me perguntando esses dias todos é que viver uma vida inventada é uma doença, começa estimulada pela baixa auto estima e aos poucos a pessoa se fecha naquele "era uma vez" onde tudo é perfeito e digno.
O que sei é que existe fragilidades muito mais além do que podemos pensar, das mentiras que contam para nós, que encenam. Com ela não tem diálogo, e infelizmente eu me vejo ( assim como outras pessoas que a conhecem) avistando uma grande tempestade se aproximando, ventando, rugindo, levantando tudo, e ela está ali de costas sorrindo pro céu ensolarado, dando de ombros, achando que não é nada, que vai ficar tudo bem, e pior eu sei que não vai, sabemos que não. Isso me angustia. É triste ver alguém que poderia ter sido tanta coisa, ter se fechado em um casamento de mentira, através de chantagens emocionais de doenças para que o outro ficasse ali de castigo. Não o culpo. Enfim é um desabafo, logo irei me mudar e não sei o que será dessa pobre criatura, não só dela ...mas quantas vivem assim? No chamado conforto emocional da chantagem com o outro. Um dia esse circulo se quebra, o outro se liberta e daí?
O que vai restar? Os anos perdidos.... Não sei...enfim é apenas um desabafo, como diz meu marido, você fez a sua parte, "bora viver a nossa vida".

